Aos que me lêem e pretendem continuar, meu novo endereço: http://www.theovaladares.blogspot.com
É tempo de fazer, não de pensar. Não acredito em tempos de mudanças, acredito que tudo muda o tempo todo. Talvez por isso decidi não me apegar aos valores e às essências. Decidi não ter o filme preferido, a música preferida ou ter o amor da minha vida.
Sou nostálgico e nostalgia é intrigante e doentia. Não saio dela, ela não sai de mim. Ainda lembro do primeiro brinquedo de criança. Parece que foi ontem a primeira ejaculação. Não superei o primeiro contato com a morte e, desde então, não sou de chorar. É horrível não chorar. E a hipersensibilidade é incômoda.
Fui profundo, materialista, militante de esquerda e acomodado direitista. Sou romântico, sou realista. Vagabundo com vocação seminarista. O que me faz praticamente uma criação de Nelson Rodrigues. O que me faz mais vagabundo.
Neuroses à parte, um grupo de mulheres na TV discute como ser mulher e ser humana, os jornais dizem que certos homens não se discutem. O cinema agora também é ópera e a internet também é cinema. Os escritores, celebridades, os inteligentes são tudo. Menos escritores. Mas são vagabundos libertários. Acima de tudo, reacionários. Eu estou neurótico.
Chegamos em um momento crucial aqui. Você desiste de me conhecer e já não é mais importante provar o meu ponto. Você admira a minha nudez e eu quero apenas apagar a luz. No entanto, farei vários retornos ao longo da vida como uma forma de recarregar minhas imunidades às imundícies que carrego dentro de mim. Neste momento o meu desejo não é mais seu. Não me coloco em suas mãos. Agarro-te! Acenda o cigarro enquanto eu visto as calças e saio. Obrigado por ter derramado em mim o que havia de puro em você.
Henriqueta estava a se questionar, pra onde ir?
Não sabia onde ia dar, mas sabia que precisava mudar.
Embora tivesse mudado várias vezes ao longo da vida. Percebera que apesar, da psicologia ensinar, tudo é mentira.
Nunca havia amado, nunca havia pensado em casamento.
Acordava todo dia gostando ou odiando o momento.
De memória curta, Henriqueta não era ressentimento.
Se tinha que brigar, era naquela hora e era um tormento.
Henriqueta gosta de café com sorvete e condimentos.
Particular paladar que sempre falhou com sentimentos.
Não amadureceu, nem sequer entendeu ou se aperfeiçoou.
Excitação ao começar, apenas um susto. Terminou!
Nunca havia amado, nunca havia pensado em casamento.
Acordava todo dia gostando ou odiando um momento.
De memória curta, Henriqueta não era ressentimento.
Se tinha que brigar, era naquela hora e era um tormento.
Dias só pra pensar, Henriqueta hoje é especialista.
Na arte de questionar as regras sociais modernas fascistas.
Está sempre ocupada, ninguém nunca perguntou o que estuda.
Pelo que se interessa? Se sua vida é ruim ou se é sortuda.
Ainda não amou, ainda não pensou em casamento.
O tempo foi passando e acabou se acostumando com momentos.
A idade chegou e hoje em dia tem uns três ressentimentos.
Muito motivo pra brigar , gente pouco interessada. Ah, que tormento!
Um amigo que tinha sede de experiências se mudou para o Japão há uns quatro anos. Terminou relacionamento, largou emprego, deixou amigos, mãe, pai e foi tratar de viver a própria vida. Inteligente como ele só, trabalhou em vários lugares. Acredito que fez algum dinheiro, teve outros namorados e provavelmente conheceu muita gente e viu muita coisa bacana. Vez ou outra ele aparece no MSN me chamando de ‘lindíssimo’, o que costumava ser um codinome com o qual uma amiga em comum nos apelidou no passado. Hoje ele apareceu e é sempre bom quando ele aparece. Trouxe uma novidade. Disse que finalmente se encontrou na vida. Não deu tempo de saber do que ele realmente falava e nem de entrar em detalhes sobre essas mudanças dele, mas o que me chamou atenção foi que ele acarretava essa mudança, esse encontro com a verdade e a felicidade, ao emprego no qual desenvolve um trabalho braçal atualmente. Curioso perguntei como um trabalho braçal poderia ter ajudado em auto-conhecimento. “Enquanto meu corpo trabalha, minha cabeça pensa. Antes trabalhava com a cabeça e só pensava o que os outros queriam que eu pensasse. Encontrei minha forma de pensar”, respondeu. Choque! Detectei a seguinte situação: os trabalhadores braçais não tiveram tempo, oportunidade ou interesse de desenvolver tamanha subjetividade para afirmar que se encontraram na vida. Enquanto isso, os trabalhos intelectuais condicionam o pensamento nos moldes corporativistas e impede que as pessoas pensem, aprendam sobre si mesmas e questionem o sistema. Foi talvez a conjectura mais interessante que passou por mim nos últimos meses. Se pessoas com capacidade para o trabalho intelectual simplesmente parassem de pensar em prol de instituições e se dedicassem ao exercício do corpo, talvez pudessem adquirir auto-conhecimento e se encontrassem. Talvez até adquirissem visão do todo e passassem a questionar. Talvez eu faça ressalvas quanto a professores, escritores e artistas. Ou de qualquer trabalhador independente e multiplicador. Não sei! Só sei que vislumbrei um quadro, uma possibilidade. Um lugar de onde poderia surgir mudanças...
Pasmen, tenho asas! Como foram parar aqui?
Será que escondo? Ah, essas asas... como cismaram de existir?
Será presente? Como fazer para disfarçar?
Constato, tenho asas, porém, não sei se posso voar.
Essas asas me atormentam, li nos meus sonhos que posso cortar.
Tais asas não se escondem, já delimitaram seu lugar.
Se descobrem minhas asas. Por Deus! Não quero pensar.
Que fardo o meu ter asas, sem a certeza de poder voar.
Sou nada mais que um escravo do medo. Com asas a se rebelar.
Assim sou eu, pássaro ou anjo que sofre ao contemplar.
Magnífico presente! Estupendas asas!
Aguardando permissão pra poder voar.
Qual será a conseqüência, o valor a se pagar por essas incoerências?
Qual o peso da verdade que reflete os olhos em um espelho que se quebra devido a um material pouco resistente à dúvida?
Quanto valem os discos de vinil e a parafernália cibernética que carregamos no bolso e nos ouvidos? Qual som é mais nítido? O do aparelho lançado há segundos ou o do grito de desespero dos perdidos em referências?
O quanto sofrem os silenciados? Como sobrevivem aqueles educados com um sentido diferente? Como pensam hoje aqueles que foram informados que pensamento era falta do que fazer?
Como se sentem os mortos-vivos depois de terem negado seus funerais? E os espíritos livres em uma jaula de papel estampando as armadilhas denominadas ‘oportunidades que só aparecem vez ou outra na vida de um homem’?
Como carregam o peso do sorriso aqueles que sofrem com as quedas de humor provocadas por um ambiente hostil aos que estão fora da linha? Como será que não explodem? Ou por onde explodem? Como se exorcizam? Como vivem? Como fogem? Como?
Não é que eu não goste de rir. Gosto das risadas. Vejo nelas algo medicinal. Mas não rio muito. Acho pouca graça. Não que eu seja amargo ou triste, só não rio de muita coisa. Não acho qualquer coisa engraçada. Gosto de sátiras e sarcasmos se estes estão esbarrando na inteligência. Fora isso não gosto, cai no deboche, que pra mim é burro. Não é que eu não goste de gente. Eu gosto de pessoas, de quando elas estão felizes e de quando se divertem. Eu só me incomodo quando a vida social fica intensa. Eu me perco e demoro a me achar quando minha agenda está cheia de compromissos sociais. Eu sinto falta de me isolar. A solidão é muito necessária no meu universo. Mais do que isso eu preciso sofrer. E preciso participar de vários funerais reservados. Preciso me enterrar e desenterrar várias vezes. Não é papo de fênix, eu não acredito em ressurgir das cinzas, acredito apenas em carregá-las após o incêndio com o propósito de fazer delas algo bom. Eu leio livros, vejo filmes e ouço muita música. Gosto de estudar os meus interesses. Passo a maior parte do tempo pensando em como sou inadequado às coisas. A minha arrogância quer mudar o mundo, a minha preguiça quer apenas reclamar dele. Das virtudes que nos ensinaram, a que eu mais gosto é o respeito e por isso respeito e quero ser respeitado. Uma abordagem respeitosa e interessada ganha minha atenção. Uma curiosa e invasiva provoca defesa. Eu não falo muito sobre mim e quando falo uso metáforas. Sou melhor ouvinte do que narrador. Já foi diferente, mas a necessidade de me expor sumiu. Eu peço desculpas somente se me sentir culpado, do contrário defendo meu ponto. Eu tenho problemas de auto-estima. Já tentei racionalizar as coisas e fiquei um chato. Hoje em dia não cobro, não sou cobrado e gosto apenas de sentimentos. Não tenho paciência para o papo de vencer na vida. Acho a fixação das pessoas pela própria profissão e pela profissão dos outros uma ditadura sem graça. O mundo se tornou tão vazio que pra se ter assunto é preciso contar e saber da profissão dos outros. Eu nem gosto de dinheiro. Se é necessário, lamento. Eu fico tentado a conversar com as pessoas somente aquilo que está na minha cabeça pra ver qual seria a reação. Eu não gosto do verbo ter. Pode até não parecer, mas eu gosto mais do que desgosto. Eu me isolo dentro de mim. Sinto que é o único lugar seguro no mundo.
" Mesmo sob o prisma pessoal, a arte é uma vida elevada. Ela traz uma felicidade mais profunda e um desgaste mais acelerado. Grava no rosto de seu servidor os traços de aventuras imaginárias e espirituais, e com o tempo, mesmo no caso de uma vida exterior de uma placidez monástica, provoca uma perversão, um refinamento, um cansaço e uma excitação dos nervos, que mesmo uma vida cheia de paixões e prazeres desvairados dificilmente poderia produzir".
Thomas Mann - Morte em Veneza - 1922
Eu não acredito em mim.
Não acredito em você.
Não acredito no universo e nem no suposto Deus que o rege.
Não acredito em dinheiro ou em poder ou prestígio. E nem acredito que morrer seja a salvação de algo.
Não acredito em auto-ajuda. Não acredito em pagar um preço.
Não acredito que ser bom ou mau salvará ou condenará minha alma.
Não acredito em céu ou em inferno. Não acredito no que eu falo, nem no que leio nos jornais.
Não acredito que o arroz do supermercado foi colhido. Muito menos acredito que alguma ciência vai curar um mal moderno.
Não acredito no abstrato e rio da falsidade do concreto. Não acredito em socos no estômago. Muito menos em homeopatia.
Não acredito que o amor anda junto com o ódio, ou que a inveja é o mal dos homens. Não acredito nos homens.
Não acredito em felicidade. E isso elimina crenças nos prazeres do sexo, do amor, da riqueza.
Ano novo. A velha festa da reunião e dos planos. Os dias sem você são curtos, muito curtos. Deveriam ser longos e intermináveis, mas passam rápido e isso não é bom. Não sinto que os exercícios dos meus sentimentos estão indo pra direção certa. Você não está aqui.
Eu fui até a locadora e aluguei alguns vídeos. Nada romântico. E nenhum que eu queira ver com você. Também fui ao mercado e comprei a pizza de sempre, que adoramos. Comprei coca light que você não gosta. Pude comprar já que vou beber sozinho. Não tenho fome agora. Vou esperar ficar mais tarde pra fazer a pizza que não vai ter o seu gosto.
Fico olhando nossas fotos. Nosso gato acabou de derrubar a comida no chão e estou criando forças pra lavar a louça. O gato sente sua falta também. Pensei em comprar champagne, mas a verdade é que eu nunca gostei. Assim como não gosto do vinho que está na geladeira. Sorte a minha ter sobrado uma lata de cerveja. Estou organizando a trilha sonora da noite. Aposto que vai ter Madonna nela.
Eu espero que você esteja bem. Que se divirta bastante essa noite e que aproveite os prazeres que a harmonia, a comida e a bebida podem te dar. Não deixe de aproveitar também a saudade. Aproveite que só nós podemos usar essa palavra. Agradeça por sentir falta de alguém e ter alguém sentindo a sua. Pense em mim, mas não gaste muito tempo nisso. Eu quero você bem disposto e sorrindo. Feliz ano novo, amor! Te encontro em 2009!
Minhas mãos marcadas,
minhas fotos ousadas
que mostram a minha desilusão.
As paixões dilaceradas, dos amores rápidos que tive por mim.
Meu rosto envelhecido,
sem medo do perigo que um dia me assustou,
me dei por vencido, fui exilado em arte.
Aqui estou...
Meus braços marcados, paladar amargo.
Pois parei de comer, parei de beber,
foi-se meu tudo próprio, naquela época de sofrer
em que eu me via com seus olhos.
Tinta de inadequação,
esforços em vão, acusações.
Suposta arrogância do tempo em questão.
Tela expressa, abstrata e concreta, desenho barato.
Minha morte secreta.
Certeza que algumas partes do meu corpo estão queimadas. O olho roxo, alguns músculos machucados. Há um corte perto da sobrancelha e escorre sangue do meu pescoço. Meus braços estão sujos, ainda não consegui diagnosticar os ferimentos deles. A dor narra as feridas pra mim de forma bem mansa. Eu manco, há queimaduras nos meus pés. O corte na barriga me é familiar. Vai ver eu o fiz em um momento de delírio. Vai ver eu devesse mesmo parar com aquelas drogas que me levam pra outro lugar. Ou pelo menos não usá-las perto do meu prestobarba. Tem algo no meio das costas, minha mão não alcança, mas arde, coça. Estou com medo de saber como vão limpar esses ferimentos. Minha bunda parece esfoladas, eu não consigo sentar. Meu pau sentiu o reflexo de todo o corpo e se encolheu. Broxou pra balanço. A grupo étnico no qual eu me enquadro ainda não tem nome. A principal característica é o sangue vermelho coagulado que conta a história. Eu vou tomar um banho pra que as cicatrizes possam se assentar.
A foto de ontem é diferente do reflexo de hoje. Parece de outrora, de um momento longínquo quando a pele brilhava, quando o corpo era forte e os cabelos vivos moldavam o rosto treinado pra esconder emoções tão banais, tão corriqueiras.
Fotografias envelhecidas. Mas o que ocorre, se foram fotos de momentos vividos outro dia? O que acontece com o tempo de dentro que faz com que eu me veja tão longe daquela realidade? Da felicidade extrema que brilhava nos olhos ou da melancolia serena que apenas aplicava um pouco de lirismo na imagem. De que forma uma pintura a óleo sairia se eu fosse modelo pra isso? Quantas vezes minhas emoções mudariam no processo. O que aconteceria se o pintor percebesse quantas vezes morro e vivo, quantas vezes rejuvenesço e envelheço. E se eu mais envelhecer? E se eu não mais rejuvenescer?
Não sou mais bonito. Não falo pra que digam que eu sou. Não me importa o que digam, o que achem. Importa-me a proposta de averiguar o que mudou dentro que reflete fora. Onde foi parar a luz? Onde está minha luz? O que me apetece na cegueira? Não acenda a luz, pois a cegueira da luz acesa é temporária. E eu não quero mais ver. Eu quero e não me quero de volta...
Ele quis que eu lesse um conto. “Agora”! Mordeu. “Se você quiser, se não quiser não precisa, lê depois”. Assoprou.
Peguei o livro e folheei dez páginas, era mais ou menos o tamanho do conto. 1h00 da manhã era o que o relógio contava. E eu estava lendo outra coisa. Mas ele quis que eu lesse o tal conto e eu achei que devia. Sexualmente falando, eu sou do tipo que obedece.
Virava as páginas e lia, tentava encontrá-lo nas frases. Ora desconfiei, ora tive certeza, ora pensei que era um recado pra mim ou que ele simplesmente gostava do conto.
O mais interessante do momento do conto é ele querer que eu conte pra ele o que eu acho do conto, pra ele me contar se ele concorda ou não. Mesmo sonolento, ele contou pouco, mas contou. Eu queria ter falado mais sobre o conto, mas o sono também bateu. Vou contar o que fica sempre depois desses momentos de leituras de contos. As incontáveis e prazerosas vezes em que tentamos entrar no mundo do outro pra contar as maneiras de escrever um conto só nosso...
Eu ando por aí fugindo de vocês que são o espelho que eu encontro nas vitrines. Todos a venda, esperando por alguma cor que caia bem no fundo do poço. Converso sobre o quanto me incomodo com a presença da minha sombra e imagino que eu não sou mesmo muito bom nisso de existir e coexistir em um mundo não sabe mais o que é.
Não é sobre os outros, é sobre mim, e talvez um dia eu peça por piedade quando for pagar a conta por descontar minhas frustrações nesse texto.
Eu leio pra te entender e fundamento as falhas de Marx pra disfarçar a minha vontade de ver sangue saindo dos poros de quem não se sente como eu. E se a pele denuncia todos as suas negligências, vejo na sua cara os danos da exposição aos ares poluídos do cheiro daquilo que está no seu bolso.
Não é sobre os outros, é sobre mim, e talvez um dia eu te atire uma pedra revoltado pelo que eu andei dizendo por todos esses anos e você não ouviu. Você ouvia o que estava na sua cabeça. Não havia notado sua surdez, então.
Eu procuro na arte o que eu não encontrei fazendo bobagens práticas na vida. O meu problema foi perceber que o que foi escrito não cabe em mim por mais que um efêmero minuto. Minha promiscuidade intelectual tornou o tédio tangível e, de fato, nada me impressiona mais do que a discrepância da minha imagem ao lado da sua.
Não é sobre os outros, é sobre mim, que talvez um dia tenha a chance de te enviar flores amarelas murchas pra provar que eu não perdi mais nem menos tempo que você tentando provar que você estava errado, apesar de te admirar exatamente por estar. Exatamente pela diferença que nos separa e que te apaga da minha memória pelo efêmero minuto de encontro que a arte me oferece.
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